“Canetas emagrecedoras” já redefinem o orçamento e os hábitos de consumo dos brasileiros
Um estudo inédito da NielsenIQ mostra que o impacto das “canetas emagrecedoras” já vai muito além da saúde e começa a se materializar de forma clara no orçamento dos consumidores brasileiros.
Entre os lares que compram medicamentos injetáveis à base de GLP‑1, como essas “canetas”, 84% relatam impacto moderado a alto no orçamento mensal, enquanto 62,2% admitem ter despriorizado outros gastos para acomodar o custo do tratamento na rotina.
Essa reorganização financeira se reflete diretamente nos hábitos de consumo. Quando questionados sobre quais despesas perderam espaço após o início do tratamento, “saídas a bares” lideram as citações, mencionadas por 62,3% dos respondentes. Na sequência aparecem gastos com Serviços (56,6%), Restaurantes (54,9%), Lazer (50,0%) e, em menor escala, Mercado (16,4%).
Dentro de “Mercado”, o efeito também é perceptível. Bebidas alcoólicas despontam como a categoria mais despriorizada, seguida por Indulgências, Bebidas Não Alcoólicas, Básicos, Higiene Pessoal e Limpeza, indicando que o ajuste de orçamento atinge tanto itens discricionários quanto categorias do dia a dia.

As mudanças no padrão alimentar acompanham esse movimento. Com a popularização do uso de GLP‑1, itens indulgentes perdem espaço: 76,9% dos entrevistados afirmam ter reduzido ou zerado o consumo de chocolates e doces, enquanto 73,4% indicam menor consumo de snacks e biscoitos após o início do tratamento.
Em contrapartida, alimentos associados a uma percepção de maior saudabilidade ganham espaço. Por exemplo, 84,4% dos brasileiros afirmaram aumentar o consumo de proteínas animais. Outros 67,6% disseram que compram mais verduras e legumes.
O peso financeiro do tratamento ajuda a explicar essa reconfiguração. Entre os consumidores que compram o medicamento mensalmente, 34,2% gastam mais de R$ 1.200 por mês, enquanto 28,5% desembolsam entre R$ 801 e R$ 1.200.
Como resultado, 32,6% avaliam esse gasto como de alto impacto no orçamento, 34,2% como impacto moderado e 17,1% como impacto muito alto, reforçando que a adoção do GLP‑1 impõe escolhas relevantes no consumo doméstico.
Penetração ainda é baixa, mas potencial de expansão é significativo
Apesar dos impactos já perceptíveis no consumo, a penetração de medicamentos injetáveis à base de GLP‑1 nos lares brasileiros ainda é relativamente baixa. De acordo com o estudo da NielsenIQ, apenas 5% dos lares fazem uso dessas medicações atualmente. No entanto, o potencial de crescimento é considerável: 26% dos consumidores declaram interesse em utilizar o produto, mas ainda não o fazem, principalmente devido ao alto custo ou ao receio de eventuais efeitos colaterais.
“Se olharmos a penetração geral é ainda baixa, apesar de alguns recortes de região e demográficos atingirem patamares próximos aos 20%. A queda da patente em março de 2026, combinada com um maior conhecimento sobre o medicamento, seus riscos e benefícios, deve favorecer o uso dos 26% que têm interesse em utilizar ao longo do tempo.”
Gabriel Fagundes – Diretor de Insights para a Indústria, NielsenIQ.
O cenário brasileiro acompanha uma tendência observada em mercados mais maduros. Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 12% dos lares utilizaram medicamentos GLP‑1 em 2025, enquanto no Canadá a penetração alcançou 15%.
Entre os lares brasileiros que já utilizam “canetas emagrecedoras”, o perfil é bastante concentrado. Consumidores de Nível Socioeconômico Alto representam 69,5% dos usuários, com predominância de pessoas entre 36 e 50 anos e sem presença de crianças.
Regionalmente, Centro‑Oeste, Leste, Sul e Grande São Paulo se destacam como as áreas com maior penetração atual, com índices de 8,2%, 5,5%, 5,5% e 5,1%, respectivamente.
Quando analisado o potencial de adoção futura — lares que demonstram interesse, mas ainda não utilizam o produto —, São Paulo (33,4%) e a Grande Rio de Janeiro (29,5%) concentram os maiores percentuais, reforçando que a expansão do GLP‑1 tende a ocorrer de forma desigual entre regiões e perfis socioeconômicos.

Onde o consumo acontece: canais que concentram a venda dos injetáveis de GLP‑1
Quando se observa a dinâmica de compra dos medicamentos injetáveis à base de GLP‑1, o canal Farma desponta como o principal protagonista.
Segundo a pesquisa, 8 dos 10 itens mais vendidos em faturamento no canal Farma em 2026 são “canetas emagrecedoras”, evidenciando a centralidade desse canal na comercialização e no crescimento da categoria.
Além de liderar em faturamento, o Farma também se destaca pela frequência de compras em geral entre os lares usuários desse tipo de medicamento. Outros canais de abastecimento, como Cash & Carry, Hipermercados e Supermercados de grande porte, também apresentam relevância no comportamento de compras e geral desses consumidores, refletindo um padrão mais amplo de abastecimento associado a esses domicílios.
Esse movimento reforça que, embora a venda dos injetáveis esteja concentrada no canal Farma, o impacto do GLP‑1 se distribui por diferentes pontos de contato do varejo, acompanhando a reorganização do orçamento familiar e dos hábitos de consumo desses lares.

“Canetas emagrecedoras”, orçamento familiar e as novas decisões de consumo
Embora a penetração das “canetas emagrecedoras” ainda seja limitada no Brasil, os dados mostram que o impacto sobre os lares usuários já é relevante e estrutural e vai muito além de Alimentos, Bebidas ou produtos eventualmente mais calóricos. Justamente porque redefine o orçamento familiar e escolhas poderão ser feitas com ainda mais cuidado. Atualmente, os impactos mais nítidos são sim nessas categorias, mas nenhuma outra está fora do risco.
Além do potencial significativo de expansão, outros fatores também influenciam no bolso, como: endividamento da população, bets e todos outros fatores socioeconômicos.
Quem não lê essa dinâmica completa, corre o risco de interpretar mal o presente e ficar fora das melhores decisões no futuro. Estratégias eficazes exigem dados consistentes e visão de mercado, e não leituras isoladas ou baseadas em percepção.
